
Delírio noturno.
A lua ia baixa pela alta madrugada
E eu ia alto pelos becos mais escuros,
Enquanto a névoa engolia toda a estrada
E o labirinto me enquadrava em seus muros.
Soou, enfim, a terceira badalada,
Bares, ares e lugares sempre impuros.
Na garganta seca uma mágoa entalada
Permitia apenas insonoros sussurros.
A fantasia aliviava o olhar desolado
Tornado lúgubre e sem vida
Pelo doce desejo cruel e malvado
Que me talhou no peito profunda ferida.
A garrafa molhava o lábio sulcado
Que antes beijara a boca querida,
Hoje entregue ao amor ao passado
E à anestesia delirante da bebida.
Um quadro deveras angustiante
Verdadeira cena de atroz terror,
Eis que surge beleza estonteante
No horizonte carcomido pela dor.
Salta do lábio da surgida sibilante
Crudelíssima praga sem pudor,
Ressoando pelo vale distante
O tormento das palavras em furor:
-Tu, que andas pela vida sem rumo,
Sabes que no mundo não terás lugar,
Conheces o prazer do álcool e do fumo,
Mas nunca serás capaz de amar!
Gozaste a vida em pródigo consumo,
Devoraste antes o que viria a provar,
Não guardou das frutas qualquer sumo
Para quando à tua alma a sede assolar!
Tu, que figurou como poeta sem o ser,
Não teve nas lides qualquer destreza,
Mas ainda pensas que há de merecer
Futuro consolo à tua fraqueza!
O que te digo o fará estremecer:
Não haverá alívio à tua tristeza,
Não folgarás jamais o teu sofrer,
Será tal a tua única certeza!
Em pavor momentâneo mergulhado
Revirei os olhos e os esfreguei.
Ergui a vista e me virei para o lado.
Será real este pesadelo? – pensei.
Ao volver o olhar já encovado:
Uma imagem que jamais esquecerei!
Mas, apesar de medroso e abismado,
Mirei a figura da mulher e a encarei:
-Por que me vens dizer agora?
O que queres com esta intentada?
Que prazer nefasto explora
Para satisfazer tua alma malvada?
Qualquer ser que o seu futuro ignora
Tenta gozar ao máximo o presente!
Por que queres me levar embora
A esperança que já tenho descrente?
E a sibila, ainda mais bela e divina,
Mordeu os lábios e, enfim, sussurrou:
-Fora tu quem traçou a tua sina,
Fora tu a quem a vida abandonou.
Possuíste tudo que te atraiu vontade
E despertou alguma tentação!
Ou vais dizer que não é verdade?
Ou vais dizer que não és tu não?
Escondendo-se em seus noturnos cabelos,
Soltou longa e pavorosa gargalhada
Que eriçou cada um dos meus pêlos
E fez minha alma mais desconsolada!
Com a sua funesta voz, proferiu alfim:
-A última coisa que tenho a falar
É também a que anuncia o teu fim:
“Do pó veio, pulvéreo então será!”
Ao fim desta assombrosa fala
Deu três passos rumo neblina,
E, na escuridão que a noite exala,
Desapareceu a representação feminina!
Eu, sem entender aquela aparição,
Atravessei correndo da névoa a cortina
Procurando seguir a assombração
Que evaporou ao dobrar a esquina!
Atordoado, desisti de procurar sentido,
E tentei depositar aquele agouro
Em algum pequeno canto escondido
Da minha mente, tal qual meu ouro.
Sentei em alguma taverna esquecida
Nas ruas que a vida me apresentou
E pedi pela mais forte bebida
Para apagar aquilo que me atemorizou.
Aos goles, foi me voltando a cor,
Mas, ainda hoje, não mais retornei
Àquela esquina que me trouxe terror,
Daquela rua não mais me aproximei!
E, até agora jamais ousei contar
A ninguém o que aqui desabafei:
O dia em que a morte me veio visitar,
O dia em que pela morte me apaixonei!
Bem sei, muitos irão logo duvidar,
Que seja real a história que contei.
Mas àqueles que ousarem zombar,
Com certo escárnio responderei:
-Atente à escassez da tua mina
E ao perpetuar da tua rica sorte,
Pois não saberás jamais em qual esquina
Encontrarás, tal qual eu, a morte!

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