sábado, 31 de julho de 2010

Pulsar

Pulsar

Estrela solitária brilhando vermelha
Talha seu rosto em meu coração
Com a efêmera chama de uma centelha
Queimando-me numa ardente sensação.

E quem duvidar, que se entregue ao amor!
Não há sol mais insólito e brilhante,
Não há mais esplendorosa flor
Do que a cálida beleza da amante!

Formosa frágua que não arde, encanta!
Doce dor que não maltrata, levanta!
Ilusão que se eterniza no olhar...

Instante que vale qualquer eternidade!
Elemento fatal de qualquer saudade.
Graça que não se pode disfarçar!


domingo, 11 de julho de 2010

Corte Eterno!


Corte Eterno

O amor é uma lança,
Lancinante é sua dor,
Doce chaga de esperança
Em cálido e distante fulgor!

Divina tortura atroz
Que acalenta o coração
Quando o mais cruel algoz
Converte-se em salvação!

E se a lança tanto feriu
Mais fere se retirada
Qual sonho que se partiu!

E a ferida sempre aberta,
Nunca em cicatriz tornada,
Só não sangra se coberta!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sem nome, sem enredo, sem razão.




Sem nome, sem enredo, sem razão.

Vamos por partes.
Não há nenhuma história.
E uma só personagem.
Sem nenhum destino.
Sem nenhum pensamento.
Sem nenhuma crença ou ideal.
Perdida no espaço dos próprios passos.
A pele ressecada transpira álcool.
Sem pregar os olhos há três dias.
Sem dormir de fato há anos.
O sono é delicado e raro.
Não é para qualquer um.
Muito menos para ele.
Ele? Ele não merece nome.
Nomear tudo ao seu redor
Foi justamente o que o aniquilou.
Buscar em tudo um sentido
Foi o que o fez perder os sentidos.

É fato.
Existem pessoas que nascem
Com a chaga de viver correndo.
Correndo contra tudo.
Correndo de tudo.
Como um carro velho na estrada.
A estrada não tem fim.
O carro nunca chega.
Mas ele dirige.
Dirige até o ponto em que o combustível acaba.
E não há como empurrar.
Nessa estrada estamos sempre subindo.
Qualquer deslize, abismo abaixo.
Nessa estrada não há companhia estável.
Tudo é lentamente abandonado no acostamento.
Não há como parar.
E a ânsia de chegar é fatal.
Tão fatal que nos impede de chegar.
A estrada não tem fim.
Nós temos.
Ela nos vence.
Em muitos casos o carro desliza
Bem antes de o combustível se esgotar.
E sabemos disso.
Mas olhamos para trás.
Sempre olhamos para trás.
Tentamos não olhar para frente.
Pois à frente está o fim.
E o fim nos dá medo.
O fim nunca nos inspira.
O início sim.
O início aconteceu.
O fim nunca acontecerá.
Ao menos não como sonhamos.
Ao menos não como queremos.

Ele continua correndo.
A sombra cada vez mais abrangente.
O sentido sempre procurado.
Mas nunca presente.
Por vezes anoitece.
A estrada se torna mais estreita.
O abismo está ali.
Abocanhando toda a esperança.
Talvez ele caia dessa vez.
Talvez o abismo tenha piedade.
Mas ele tem um desejo.
Ele quer parar.
Descer do carro.
Olhar o céu.
Olhar a lua.
Ser ele mesmo.
Parado.
Paralisado.
Estático.
Sem pensar.
Sem se iludir.
Sem correr.
Isso!
Ele não quer mais correr.
Não quer mais buscar algo.
Quer sentir o presente.
Quer ser o que é.
Quer ser o presente.
Seu próprio presente.
Comprado por si mesmo.
E endereçado para lugar nenhum.

E ele pára.
Acende um cigarro.
Vira meio cantil.
É a sua vida.
Ali e agora.
Beira o abismo.
Escárnio.
Escorrega.
Mas não cai.
Ainda não.
Ainda é cedo.
Vira mais meio cantil.
Placebo.
Mas ajuda, sempre ajuda.
Ainda há mais garrafas.
Ainda há muita estrada.
E nenhuma parada.
Mas ele para.
Nunca respeitou a sinalização.
As placas e os outdoors são a mesma coisa.
Não apresentam qualquer sentido.
Nada tem sentido.
Nem devia ter.
Tudo é o que parece.
Menos ele.
Menos sua vida.
Menos sua dor.

Volta para a estrada.
Cada vez mais cansado.
O tanque fica cada vez mais vazio.
Não há o que fazer.
Resta apenas correr.
Fugir de tudo.
Fugir do abismo.
Fugir de si mesmo.
O pensamento assombra.
A tristeza toma corpo.
Amarga carona em toda a viagem.
Um nevoeiro surge entre as colinas
E se torna cada vez mais denso.
Os faróis já não iluminam a estrada.
A razão já não dirige o carro.
Cento e oitenta.
Um grande gole de uísque.
Duzentos.
Um brinde e tanto!
Duzentos e vinte.
O último trago.
Duzentos e quarenta.
Garrafa arremessada contra o vidro.
Carro arremessado contra o abismo.
Uma explosão ilumina a escuridão.
O nevoeiro se esvai
Junto com a corrida.
Junto com o carro.
E ele, ele nunca foi um bom motorista.