sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sem nome, sem enredo, sem razão.




Sem nome, sem enredo, sem razão.

Vamos por partes.
Não há nenhuma história.
E uma só personagem.
Sem nenhum destino.
Sem nenhum pensamento.
Sem nenhuma crença ou ideal.
Perdida no espaço dos próprios passos.
A pele ressecada transpira álcool.
Sem pregar os olhos há três dias.
Sem dormir de fato há anos.
O sono é delicado e raro.
Não é para qualquer um.
Muito menos para ele.
Ele? Ele não merece nome.
Nomear tudo ao seu redor
Foi justamente o que o aniquilou.
Buscar em tudo um sentido
Foi o que o fez perder os sentidos.

É fato.
Existem pessoas que nascem
Com a chaga de viver correndo.
Correndo contra tudo.
Correndo de tudo.
Como um carro velho na estrada.
A estrada não tem fim.
O carro nunca chega.
Mas ele dirige.
Dirige até o ponto em que o combustível acaba.
E não há como empurrar.
Nessa estrada estamos sempre subindo.
Qualquer deslize, abismo abaixo.
Nessa estrada não há companhia estável.
Tudo é lentamente abandonado no acostamento.
Não há como parar.
E a ânsia de chegar é fatal.
Tão fatal que nos impede de chegar.
A estrada não tem fim.
Nós temos.
Ela nos vence.
Em muitos casos o carro desliza
Bem antes de o combustível se esgotar.
E sabemos disso.
Mas olhamos para trás.
Sempre olhamos para trás.
Tentamos não olhar para frente.
Pois à frente está o fim.
E o fim nos dá medo.
O fim nunca nos inspira.
O início sim.
O início aconteceu.
O fim nunca acontecerá.
Ao menos não como sonhamos.
Ao menos não como queremos.

Ele continua correndo.
A sombra cada vez mais abrangente.
O sentido sempre procurado.
Mas nunca presente.
Por vezes anoitece.
A estrada se torna mais estreita.
O abismo está ali.
Abocanhando toda a esperança.
Talvez ele caia dessa vez.
Talvez o abismo tenha piedade.
Mas ele tem um desejo.
Ele quer parar.
Descer do carro.
Olhar o céu.
Olhar a lua.
Ser ele mesmo.
Parado.
Paralisado.
Estático.
Sem pensar.
Sem se iludir.
Sem correr.
Isso!
Ele não quer mais correr.
Não quer mais buscar algo.
Quer sentir o presente.
Quer ser o que é.
Quer ser o presente.
Seu próprio presente.
Comprado por si mesmo.
E endereçado para lugar nenhum.

E ele pára.
Acende um cigarro.
Vira meio cantil.
É a sua vida.
Ali e agora.
Beira o abismo.
Escárnio.
Escorrega.
Mas não cai.
Ainda não.
Ainda é cedo.
Vira mais meio cantil.
Placebo.
Mas ajuda, sempre ajuda.
Ainda há mais garrafas.
Ainda há muita estrada.
E nenhuma parada.
Mas ele para.
Nunca respeitou a sinalização.
As placas e os outdoors são a mesma coisa.
Não apresentam qualquer sentido.
Nada tem sentido.
Nem devia ter.
Tudo é o que parece.
Menos ele.
Menos sua vida.
Menos sua dor.

Volta para a estrada.
Cada vez mais cansado.
O tanque fica cada vez mais vazio.
Não há o que fazer.
Resta apenas correr.
Fugir de tudo.
Fugir do abismo.
Fugir de si mesmo.
O pensamento assombra.
A tristeza toma corpo.
Amarga carona em toda a viagem.
Um nevoeiro surge entre as colinas
E se torna cada vez mais denso.
Os faróis já não iluminam a estrada.
A razão já não dirige o carro.
Cento e oitenta.
Um grande gole de uísque.
Duzentos.
Um brinde e tanto!
Duzentos e vinte.
O último trago.
Duzentos e quarenta.
Garrafa arremessada contra o vidro.
Carro arremessado contra o abismo.
Uma explosão ilumina a escuridão.
O nevoeiro se esvai
Junto com a corrida.
Junto com o carro.
E ele, ele nunca foi um bom motorista.

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